Excelente análise sobre o excelente Show de Truman

truman

Nos noticiários de televisão preste atenção à regularidade com que notícias veiculadas são derivadas de câmeras de segurança instaladas em prédios, vias públicas, repartições governamentais, empresas, elevadores… Repare também que a disseminação dos telefones celulares com câmeras é um dos recursos que tem abastecido os jornais da TV e da internet. Na realidade o fenômeno da postagem de vídeos popularizado principalmente a partir do advento doYouTube faz com que cada vez mais as mídias tradicionais recorram à internet na busca por vídeos que venham a compor seus programas. E isso não ocorre só com os noticiários, estas publicações espontâneas e amadoras ganham espaço em programas de auditório, de esportes, de entrevistas, em humorísticos…

George Orwell, escritor inglês que se notabilizou a partir da publicação de clássicos como “A Revolução dos Bichos” e “1984”, já previa a proliferação das câmeras pela sociedade. E ia além disso, pois compreendeu ainda nos anos 1950 que o uso acentuado deste recurso poderia ser ostensivo e que, de algum modo, iria atentar contra as liberdades individuais e a própria espontaneidade das pessoas. Cerceadas por câmeras, que poderiam ter imagens gravadas e utilizadas contra si, as pessoas teriam que agir dentro dos conformes ditados pela sociedade, empresas, governos e todo órgão representativo que de algum modo tivesse autoridade sobre elas.

Outro elemento cultural clássico que resgata este controle se disseminando socialmente a partir de câmeras instaladas aqui, lá, acolá e em qualquer canto do mundo é “Brazil, o filme”, de Terry Gilliam. Novamente a opressão ganha forma a partir do momento em que as câmeras acompanham as pessoas em todos os passos que dão. Seja em casa, nas ruas, no trabalho ou no lazer há sempre algum olho eletrônico bisbilhotando suas ações e, mesmo, escutando o que você diz. O pior é que tudo isso pode ser usado contra você. A favor também, mas cabe ao controlador das imagens definir se assim o fará ou se omitirá partes que sejam convenientes para sua defesa e extrapolar na exposição de trechos recortados que o coloquem em situação difícil.

“O Show de Truman” (1998), realizado por Peter Weir (diretor de “A Testemunha” e “Sociedade dos Poetas Mortos”, entre outros) e estrelado por Jim Carrey, é também uma produção cinematográfica que elabora ao longo de seu desenvolvimento, apesar do tom aparentemente cômico, severa crítica ao Big Brother (expressão esta que foi criada por Orwell para designar o governo autoritário que por meio das câmeras monitorava seus cidadãos) que cada vez mais impera no planeta.

Tendo em vista que a própria terminologia Big Brother foi desprovida de sua conotação crítica inicial, dada por Orwell em “1984”, e considerando-se que tenha virado show televisivo em que pouco mais de uma dezena de participantes vive em uma casa durante aproximadamente 3 meses sendo constantemente monitorados e em disputa por prêmio milionário, é preciso resgatar Truman e pensar a respeito desta relação de proximidade com o olho eletrônico que é cada vez mais presente.

O sentido do termo privacidade, trazido a nós pelos dicionários, elucida que se trata da intimidade, do necessário e fundamental espaço para que tenhamos nossas particularidades respeitadas, sem que qualquer tipo de olhar alheio intimide. Isto não quer dizer que a privacidade seja o espaço básico e vital onde podemos fazer tudo o que quisermos e que, assim sendo, possamos, por exemplo, burlar leis, a moral, os princípios éticos, a cidadania e, principalmente, o respeito ao próximo, ao outro.

Espera-se que a família, a educação, o trabalho, a convivência social em todas as suas esferas seja capaz de orientar os atos das pessoas para que, desta forma, mesmo em sua intimidade e privacidade, sejam capazes de agir de forma correta, socialmente aceita e que não cause repercussões negativas para quem quer que seja.

“O Show de Truman” é um filme caricato, que busca ser sensível a ponto de comover o público em relação à história de um homem que nasceu num mundo de faz de conta, em um imenso estúdio de televisão no qual todos são atores, exceto ele. A hiperexposição às câmeras é ingrediente fundamental na história. A interpretação como elemento de relação humana basilar é outra característica presente o tempo todo. Como em cena, no que deveria ser simplesmente a vida de Truman (Jim Carrey), todos os participantes, exceto o protagonista, cumprem roteiros pré-estabelecidos, assumem papéis que lhes foram designados por um ou mais roteiristas e não têm escolha quanto às falas que trazem diante das câmeras e são vistas por milhões de telespectadores.

A esposa de Truman o ama diariamente diante de todo o público que acompanha a vida de seu marido desde o seu nascimento. Esse amor, assim como todo o romance prévio que os encaminhou para a vida conjugal foi previsto pelos escritores que foram concebendo a trajetória do astro do show. Estrela de TV que nem sabe ser esta a sua principal razão de existência. Assim como a esposa, os amigos, os colegas de trabalho, os comerciantes, as pessoas que andam pelas ruas e tudo o mais são impostores para Truman. O problema é que ele não sabe de nada disso e, sendo assim, aquela é a vida como ela é, ao menos para ele.

Quando realizamos a transposição de sua história para os dias de hoje, em que o monitoramento das pessoas é cada vez maior, não apenas pelas câmeras, mas também pelos computadores, através dos hábitos de consumo, por extratos bancários, nas redes sociais e/ou em qualquer tipo de informação que possa ser rastreada, é possível fazer a analogia com Truman.

Até mesmo quanto ao fato de que as pessoas assumem papéis diante dos outros e que, mesmo nós, assim o fazemos tantas vezes. Nas redes sociais, por exemplo, quantas pessoas diariamente, pelo mundo afora, apregoam perfis que não são realmente condizentes com o que pensam, com a vida que levam, com as atitudes que tem?

O ‘Câmera Brother’, que não é tão “brother” assim, pois assiste em busca de falhas, imperfeições, defeitos e erros que todas as pessoas certamente têm ou cometem, está logo ali, no corredor ou no elevador a lhe monitorar. E se rimos de videocassetadas que se disseminam pelas redes de TV ou na web, ao mesmo tempo temos que nos dar conta de que há o outro lado da moeda, aquele no qual as imagens não são cômicas e sim trágicas e dramáticas.

Se por um lado as imagens podem também contribuir para a sociedade, pela identificação de pessoas que não respeitam as leis (como nos casos de corrupção filmados e trazidos a público e que demandam ações judiciais contra os infratores) ou ainda por conta do rastreamento de ações de violência e vandalismo, somente para ficar nos casos mais evidentes de contribuições trazidas pelos olhos eletrônicos onipresentes, o que se faz necessário é saber até onde vai a invasão de privacidade que assola ambientes públicos e privados e como se deve regular esta exposição demasiada e invasiva.

A vida humana não pode ser devassada da forma como acontece em “O Show de Truman”. A ficção ali não é inspiradora no sentido das ações que diretores, técnicos, roteiristas e telespectadores assumem quanto à vida de um pobre homem, inocente quanto a todo o circo que o rodeia.

É nesta seara que a escola precisa e pode pensar “O Show de Truman”. Há outras, é claro, mas questões elementares relacionadas aos direitos individuais dos cidadãos, previstos em leis existentes no Brasil assim como em outras nações, tornam-se fundamentos a serem conhecidos para que os estudantes de hoje e de amanhã se posicionem quanto à violação de seus mais elementares instrumentos de cidadania. A preservação da identidade, dos valores, das preferências políticas, das bases éticas e morais, da cultura original e de tudo que se refere ao ser em sua essência não podem ser devassados pelos olhos eletrônicos do Grande Irmão.

Sobre Ale Rodriguez
PP inspirado em compartilhar informações, ideias, tendências em que acredito. Maníaco por natureza, quando o assunto é música, cinema e marketing.

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